Categorias: Informações Úteis

Cabeceio no futebol infantil

Bom, vamos começar falando do futebol. Futebol é um esporte dinâmico que possui variadas técnicas para amortecer ou diminuir a velocidade da bola e também técnicas de domínio e de controle de bola. Dentre essas técnicas temos domínio (“de coxa”, “de peito”, “de chapa”, etc), o chute (que pode ser como o “voleio”, “peito de pé”, “chapa”, etc), o passe, também com suas variações, e o próprio cabeceio, que estamos tratando aqui.
Cabeceio é a ação ou o efeito de cabecear. Segundo o Dicionário Olímpico de Futebol, “cabeceio consiste no deslocamento da bola com a cabeça. Pode ser usado como recurso de defesa, passe ou mesmo de finalização para o gol. No cabeceio defensivo e no passe com a cabeça, a bola é direcionada para o alto. No cabeceio em direção ao gol, a bola pode ser direcionada para a frente ou para baixo, principalmente após cobranças de falta e escanteio, ou de um lançamento”.

Dependendo da dinâmica de um jogo, o cabeceio pode ocorrer repetidas vezes e até mesmo em jogadas sucessivas, sem que o jogo seja interrompido. Por exemplo: um escanteio pode gerar um cabeceio, que pode gerar um ataque, que pode gerar um outro cabeceio, que pode gerar um rebote, e assim por diante… ou seja, podemos dizer que o cabeceio é um recurso técnico importante tanto para defesa, quanto para passe e até mesmo para finalização da jogada.
Outros nomes dentro do futebol para o cabeceio são: “ajeitar de cabeça”, “cabeçada”, “cabecear” ou até mesmo, popularmente, “peixinho”.
Portanto, cabeceio é um fundamento muito importante dentro do esporte complexo que é o futebol.
Mesmo considerando o cabeceio como um fundamento e como parte importante do jogo e do treino de futebol, a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) anunciou em fevereiro de 2020 que poderá proibir cabeceios em jogos e em treinos para menores de 12 anos.
Quando eu vi essa notícia, logo fui pesquisar de onde vinha, e qual o fundamento dessa possível decisão.
Tenho um filho de 11 anos que pratica futebol como esporte, e confesso que meu coração e minha cabeça doem ao vê-lo disputar uma bola com a cabeça. Contudo, sendo mãe, não quis dar uma opinião contaminada pela maternidade, gostaria de obter informações de forma mais precisa.
Por isso, convidei vários profissionais do meu convívio para a expressar a opinião deles sobre esse possível anuncio da CBF.

São 4 médicos (sendo 1 ortopedista e 3 pediatras), 3 fisioterapeutas (2 que trabalham diretamente com crianças e 1 que trabalha diretamente com lesões esportivas) e 3 educadores físicos que trabalham diretamente com o treino do futebol na infância e adolescência em escolas e clubes de futebol profissional.
Vamos a opinião dos meus convidados:
1. Dra. Lílian Zaboto, pediatra e mãe de um mini atleta, alertou que é possível ter lesões neurológicas e nos lembra que lesões neurológicas são irreversíveis.
2. Dr. Claudio Len, pediatra e professor de pediatria, diz que confia na determinação da instituição CBF e se há risco de lesão, não faz sentido colocar crianças saudáveis em risco.
3. Dr. Evandro Salgado, pediatra e intensivista, a partir de estudos científicos, alerta que o impacto na cabeça das crianças pode ser igual ao impacto nos adultos que jogam futebol americano.
4. Dr. Bruno De Biase, ortopedista do Hospital Israelita Albert Einsten, afirma que existe a possibilidade de lesão, mas também que precisamos de mais estudos científicos a respeito. Mas –diz ele- enquanto esses estudos não vêm, acata a decisão da CBF.
5. Conceição Costa, fisioterapeuta e rolfista, especialista em dor, diz preocupada: mesmo com poucos estudos científicos, qualquer pancada na cabeça é preocupante.
6. Fabiana Carvalho, fisioterapeuta da reumatopediatria na UNIFESP, levanta a possibilidade de que esses repetidos impactos, mais a sobrecarga excessiva, interferiram negativamente no estirão de crescimento da criança.
7. Rosana Seixas dos Santos, fisioterapeuta pós-graduada em fisioterapia esportiva e traumato-ortopedia argumenta que não precisamos expor nossas crianças a lesões, mesmo que imperceptíveis.
8. Pedro Henrique (PH), educador físico e técnico do futebol de base do Athlético Paranaense diz que precisamos sempre avaliar “o que e quanto” a criança cabeceia e que eliminar o ensino desse fundamento tão importante pode interferir diretamente no ensino do próprio esporte.
9. Marcelo Castilho, educador físico, coordenador e treinador da CBF School – Alphaville – SP, salienta que a melhor idade do aprendizado motor da criança, que está entre os 9 e os 11 anos. Ele defende a manutenção do treino com bolas leves, mas lembra que crianças podem se adaptar, pois aprendem rapidamente, no caso de a CBF vir a proibir o treino do cabeceio.
10. Élton Nunes, educador físico idealizador e criador do programa Soccer Labs, “um programa que trata do atleta como peça fundamental do jogo” diz que se isso acontecer, nós vamos nos adaptar.
Bom, diante dessa notícia e de todas essas opiniões, me lembrei de quando meu filho, aos 9 anos, jogou um torneio infantil de futebol na Flórida (USA).
Na época, fiquei espantada quando percebi marcações “estranhas” de falta, contra o time dele: mas era por causa do cabeceio. Cada cabeceio, uma falta…
Perguntamos à juíza do jogo o que estava acontecendo e ela nos informou que desde 2015 era proibido às crianças dar cabecear a bola, nos EUA. Nós não sabíamos disso…
Bem, as crianças se adaptaram rápido: a partir do segundo jogo, ninguém mais cabeceou.
Segundo o “The New York Times”, uma decisão em uma ação judicial movida em 2014, num tribunal estadual na Califórnia, proibiu que crianças de até 13 anos jogassem ou treinassem o gesto técnico. Essa ação foi movida por uma associação de pais e o grupo responsável pela ação diz que só em 2010 foram quase 50 mil jogadores e jogadoras sofreram alguma contusão em lances de jogos ou em treinamentos.
Esses dados foram analisados por pesquisadores da Universidade do Colorado e posteriormente publicado no “JAMA Pediatrics.”
O jornal “Neurotrauma” publicou em 2017 resultados de uma pesquisa que sugeriu uma associação entre a exposição a impactos repetitivos na cabeça no futebol (que são os cabeceios de alta velocidade) à falta de melhora do desempenho cognitivo em jovens atletas ao longo do tempo.
O médico da Seleção Brasileira de Handebol, Leandro Gregorut disse numa entrevista à Revista “CRESCER” que cabeçadas constantes e repetidas podem causar pequenos traumas no cérebro pelo movimento de contato da bola com a cabeça. Ele diz que: “há uma desaceleração brusca do cérebro, e essa desaceleração brusca pode causar pequenas lesões. Essas pequenas lesões deixam cicatrizes que podem levar a perda de memória, déficit de atenção e dificuldade para interpretar pequenas situações”. Ele ainda afirma: “essa é uma fase em que o sistema cognitivo da criança ainda está em formação, então, machucar essa região prejudica o presente e o futuro”.
“É uma orientação internacional que ainda está sendo adotada por outros países. Estamos estudando a possibilidade baseada em estudos internacionais. No entanto, as conversas ainda são preliminares, não há decisão ou prazo”, informou a assessoria de imprensa da CBF a Revista CRESCER.
Ao lado de tudo isso, eu ainda observei que nossas crianças passam muito mais tempo em eletrônicos do que gostaríamos que elas passassem. Mas o que os eletrônicos têm a ver com isso? O “pescoço de celular” um apelido para a geração que perdeu o olhar vertical, tem como consequência músculos da coluna cervical ainda mais fracos.
Leia o artigo que eu escrevi sobre O uso excessivo de telas e assista o vídeo:

Então, diante desse quadro, me arrisco a dizer: não só a massa encefálica das crianças está em risco com o cabeceio no futebol, mas, também a própria estrutura da coluna cervical, como consequência do “pescoço de celular”.
Pensando nisso, resolvi gravar alguns exercícios para que as crianças façam antes de treinarem o gesto técnico do cabeceio, mesmo que seja com bolas leves, porque acredito que a musculatura do pescoço das crianças não anda suportando nem o treino com bolas leves…

As crianças precisam fortalecer a musculatura ANTES de treinar esse gesto técnico.
E enquanto aguardamos a decisão da CBF, vale lembrar que manter um corpo forte, bem nutrido, saudável e com o sono reparador ainda é nossa maior prevenção.

Deixe seu comentário!