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Dor cervical e a linha do olhar

Menina com mão na nuca, representando que está com dor cervical
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Para falarmos de dor cervical e a linha do olhar em crianças e adolescentes, primeiro é preciso falar sobre a coluna. A coluna vertebral é um conjunto de ossos (vértebras), ligamentos, músculos, fáscia e meninges, e possui função de mobilidade e proteção da medula espinhal, sendo ao mesmo tempo muito forte e muito frágil.

Então, essa coluna é dividida por função e morfologia (forma das vértebras), sendo elas a coluna cervical, a coluna torácica, a coluna lombar, sacral e coccígea. Cada parte da coluna tem sua curvatura já habitua: na coluna cervical a lordose; na torácica a cifose; na lombar, novamente, a lordose; e na região do sacro e cóccix, repetindo, a cifose.

A apresentação de retificações ou exacerbações das suas curvaturas normais precisam ser pesquisadas, mas não necessariamente tratadas, sendo que essas curvaturas podem ser mais acentuadas ou retificadas dependendo também da etnia. Em sua função de sustentação, está a sustentação da cabeça. Com a função de mobilidade, temos a linha do olhar (horizonte) que nos guia através da visão.

Agora podemos começar a compreender a relação dor cervical e a linha do olhar em crianças e adolescentes.

Mas e agora que a grande maioria das crianças e adolescentes (e adultos também) não conseguem mais manter os olhos no horizonte?

Os telefones celulares saíram da simples função de falar a distância de forma instantânea, passando por mensagens de texto e chegando a funções de computadores, aplicativos que controlam dados de saúde, redes sociais e até diversão. Com isso, os celulares passaram a tomar conta de vários dos nossos sentidos.

O pescoço (coluna cervical) inclina e roda para direita e para a esquerda, além de deslocar espontaneamente (deslocar a cabeça em relação a caixa torácica), o que nem todas as pessoas conseguem executar. Dentre as funções, também podemos classificar em estática e dinâmica. Sua função estática e antigravitacional é a função de manter o indivíduo posicionado, seja em pé, sentado ou deitado, contra a gravidade, enquanto a dinâmica abrange as funções de locomoção e função.

A ergonomia é uma área da ciência que estuda, identifica e aplica os melhores métodos para projetar a fim de otimizar o bem-estar humano na atividade por ele desempenhada (conceito adaptado do Wikipédia). Logo, ela sempre aponta caminhos de utilização do corpo sem que danos, sempre buscando posicionamentos em que o corpo não se lesione.

Numa leitura de um livro por exemplo, há uma adaptação da postura e, vez ou outra, há um ajuste dessa postura, enquanto durante o uso de eletrônicos como tablets e celulares há uma atração e distração de forma mais profunda e, sendo assim, a “cabeça para baixo” tende a ficar para baixo por mais tempo, sem mesmo que se perceba.

O que diz a literatura?

Os maus hábitos posturais dos escolares já é uma preocupação dos pais e profissionais e é tema de estudo e pesquisa¹. Um estudo² que analisou hábitos de tela e dor nas costas constatou que os estudantes do sexo feminino apresentaram mais queixas de dores nas costas, principalmente na região cervical, enquanto os estudantes do sexo masculino se queixam majoritariamente de dor lombar.

Outro estudo³ realizado com adolescentes entre 10 e 19 anos em Cingapura, estudou a possível associação entre o uso de dispositivo móvel em tela de toque, sintomas musculoesqueléticos e saúde visual. Os achados sugeriram que um padrão no uso de smartphones e/ou tablets pode representar um risco em potencial de desenvolvimento de sintomas musculoesqueléticos.

A questão é que, com o aumento do sedentarismo, a ineficiência muscular também aumenta. A musculatura profunda da coluna que já foi forte, hoje está cada dia mais fraca, aumentando a possibilidade de dor.

Gostaria de pontuar mais um aspecto: o uso do celular no carro no banco da frente do passageiro. Eu, particularmente, já aviso a galerinha aqui de casa que se quiser ir assistindo ou vendo algo no celular, que estejam no banco de trás porque, em caso de um acidente, mesmo que o mais bobo possível, se o impacto for suficiente para acionar o airbag, o celular pode se tornar uma arma. A função do airbag é proteger, mas ao mesmo tempo ele pode arremessar qualquer objeto contra o passageiro. Então, não é só com direção que celular não combina, com passageiro no banco da frente também não.

E a linha do olhar? Qual a importância de manter ela no horizonte?

Sem entrar nas questões emocionais e de relacionamentos, olhar em frente evita quedas e proporciona algo lindo que é a contemplação. Considerando tudo que foi citado, numa marcha efetiva, o pescoço precisa estar livre para que a dissociação de cinturas e economia de energia seja feita de forma mais eficiente.

Numa visão a partir dos trilhos anatômicos (Thomas Myers), a cabeça “pendurada” encurta a linha superficial anterior que corre desde a ponta dos dedos do pé anteriormente, passando pela frente do quadril, púbis, virilha, abdômen, mamas e até a garganta.

Segundo Thomas Myers, uma simples postura em flexão cervical tenciona a linha superficial anterior, a linha superficial posterior e a linha espiral, podendo trazer muitos prejuízos até para órgãos internos (saiba mais em sua obra Trilhos Anatômicos).

E então, o que fazer?

O melhor, é usar a coluna em todas as suas funções, sejam elas estáticas ou dinâmicas. Brincadeiras de criança como pular corda, amarelinha, rouba-bandeira, dentre outras, são brincadeiras de impacto. Os exercícios ou brincadeiras de impacto aumentam a densidade óssea (prevenindo osteoporose) e melhoram a condição de toda a musculatura antigravitacional (a musculatura que nos mantém em pé), consequentemente, melhorando a musculatura profunda da coluna. Na verdade, é simples.

Se você é um profissional Fisioterapeuta e está lendo esse post, lembre-se de incluir na sua reabilitação o impacto. Se você é pai, mãe ou cuidador e está por aqui, estimule as brincadeiras de quintal, mesmo que feitas dentro de casa. Vamos prevenir e melhorar essa dor cervical e a linha do olhar.

Fisioterapeuta, lembre-se sempre que nossa missão transcende o reabilitar, ou melhor, dentro do reabilitar está o informar e conscientizar crianças, adolescentes e seus cuidadores, olhando sempre para frente (horizonte).

Vamos olhar para o horizonte?

 

Referências:

  1. FRANÇA, et al. Back pain in elementary schoolchildren is related to scren habits. Aims Public Health. 2020
  2. FABRICANT, et al. The Epidemiology of Back Pain in American Children and Adolescents. Spine. 2020
  3. TOH, et al. A prospective longitudinal study of mobile touch screen device use and musculoskeletal symptoms and visual helth in adolescents. Applied Ergonomics . 2020
  4. KEDRA, et al. Physical activity and low back pain in children and adolescentes: a systematic rewiw. Europian Spine Jornal. 2020
  5. JINNOCHI, et al. Effects of brief self-exercise education on the managent of chronic low back pain: a community-based, randomized, parallel-group pragmatic trial. Modern Rheumatology. 2020
  6. YAMATO, et al. Do schoolbags cause back pain in children and adolescentes? A systemactic rewiew. British Jornal of sports medicine. 2017

 

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